Primeiro
CORTAR O PROGRAMA!
Quase todas as disciplinas foram perdendo aulas ao longo
das décadas anteriores. Não obstante, os programas
nem sempre acompanharam estes cortes.
Pergunte-se: isto é realmente importante?
Este conteúdo é essencial? Não seria melhor aprofundar
mais tais tópicos e menos outros? Se a justificativa
é a pressão do vestibular, ela não pode ocupar 11 anos
de Ensino Médio e Fundamental. Se a justificativa
é uma regra da escola ou um coordenador obsessivo,
lembre-se: o Diário de Classe sempre foi o documento
por excelência do estelionato. A coragem da grande
tesoura é essencial. Dar tudo equivale a dar nada.
Ensinar a pensar não implica esgotar o conhecimento
humano.
Segundo
SEMPRE PARTIR DO ALUNO!
Chega de lamentar o aluno que não temos!
Chega de lamentar que eles não lêem, a partir de uma
nebulosa memória do aluno perfeito que teríamos sido
(nebulosa e duvidosa). Este é o meu aluno real. Se, para
ele, Paulo Coelho é superior a Machado de Assis
e baile Funk é superior a Mozart, eu preciso saber
desta realidade para transformá-la. Se ele é analfabeto
devo começar a alfabetizá-lo. Se ele está no Ensino Médio
e ainda não domina soma de frações de denominadores
diferentes devo estar atento: esta é minha realidade.
A partir do zero eu posso sonhar com o cinco ou seis.
A partir do imaginário da perfeição é difícil produzir algo.
A Utopia, desde Platão e Thomas Morus, tem a finalidade
de transformar o real, nunca de impossibilitá-lo.
Terceiro
PERDER O FETICHE DO TEXTO!
Em todas as áreas, em especial nas humanas, os alunos são
instigados quase que exclusivamente ao texto. Num mundo
imerso na imagem e dominado por sons e cores, tornamos
o texto central na sala de aula. Devemos estar atentos
ao uso de imagens, música, sensorialidades variadas.
O texto é muito importante, nunca deve ser abandonado.
Porém, se o objetivo é fazer pensar, o texto é apenas
um instrumento deste objetivo maior. Há pessoas que
pensam e nunca leram Camões e há quem saiba Os Lusíadas
de cor e não pense... Lembre-se de que há outros instrumentos.
A sedução das imagens deve ser uma alavanca a nosso favor,
nunca contra. Usar filmes, propagandas, caricaturas, desenhos,
mapas: tudo pode servir ao único grande objetivo da escola:
ajudar a ler o mundo, não apenas a ler letras.
Quarto
POSSIBILTAR O CAOS CRIATIVO!
Fomos educados a um ideal de ordem com carteiras
emparelhadas e, mesmo no fundo do nosso inconsciente,
este ideal persiste. Qual professor já não teve o pesadelo
de perder o controle total de uma sala, especialmente na
noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula?
Devemos estar preparados para o caos criador e para o lúdico.
Alunos andando pela sala, trocando fragmentos de textos
ou imagens dados pelo professor, discussões, encenações,
o professor recitando uma poesia ou mandando realizar um
desenho: tudo pode ser canal deste lúdico que detona o caos
criativo. Surpreenda seus alunos com uma encenação, com
um silêncio, com um grito, com uma máscara. Uma sala pode
estar em ordem e ninguém aprendendo e pode estar com
muitas vozes e criando ambiente de aprendizado. Lembre-se o s
ilêncio absoluto é mais importante para nós do que para os alunos.
É difícil vencer a resistência dos colegas e da própria escola a isto.
Lógico que o silêncio também deve ser um espaço de reflexão,
mas é possível pensar que há valor num solo gentil de flauta, numa
pausa ou num toque retumbante de 200 instrumentos.
Quinto
INTERDISCIPLINAR!
Assim mesmo, entendido o princípio como um verbo,
como uma ação deliberada. É fundamental fazer
trabalhos com todas as áreas. Elaborar temas transversais
como o MEC pede e, ao mesmo tempo, libertar o aluno
da idéia didática das gavetas de conhecimento. Não apenas
áreas afins (como História e Geografia) mas também
Literatura e Educação Física, Matemática e Artes, Química
e Filosofia. É preciso restaurar o sentido original de conhecimento,
que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a
noção de todo. O profissional do futuro
é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.
que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a
noção de todo. O profissional do futuro
é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.
Sexto
PROBLEMATIZAR O CONHECIMENTO!
Oferecer ao aluno o cerne da ciência e da arte: o problema.
Não o problema artificial clássico na área de exatas, mas os
problemas que geraram a inquietude que produziu este mesmo
conhecimento A chama que vivou os cientistas e artistas é
transmitida como um monumento inerte e petrificado.
Mostrem as incoerências, as dúvidas, as questões estruturais
de cada matéria. Mostrem textos opostos, visões distintas,
críticas de um autor ao outro. Nunca fazer um trabalho como:
"O Feudalismo" ou "O Relevo do Amapá"; mas problemas para
serem resolvidos. Todo animal (e, por extensão, o aluno) é curioso.
Porém, é difícil ser curioso com o que está pronto. Sejamos francos:
Sétimo
VARIAR AVALIAÇÕES!
Provas escritas são válidas, como a vitamina A
é válida para o corpo humano. Porém,
avaliações variadas ampliam a chance de explorar
outros tipos de inteligência na sala. As outras
avaliações não devem ser vistas como um
trabalhinho para dar nota e ajudar na prova,
mas como um processo orgânico de diminuir
um pouco a eterna subjetividade da avaliação.
Oitavo
USAR O MUNDO NA SALA DE AULA!
O mundo está permeado pela televisão, pela Internet,
pelos jornais, pelas revistas, pelas músicas de sucesso.
A escola e a sala de aula precisam dialogar com este
mundo. Os alunos em geral não gostam do espaço da sala
porque ele tem muito de artificial, de deslocado, de
fora do seu interesse. Usar o mundo da comunicação
contemporânea não significa repetir o mundo da
comunicação contemporânea; mas estabelecer
um gancho com a percepção do meu aluno.
Nono
ANALISAR-SE PESSOALMENTE!
A primeira pessoa que deve responder aos
questionamentos da educação é o professor.
Somos nós que devemos saber qual o motivo de dar
tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura.
O professor é o primeiro que deve saber como tal ciência
transformou a sua vida. Isto implica fazer toda espécie
de questão, mesmo as incômodas. Se eu não fico lendo
tal autor por prazer e nem o levo aos meus passeios
como posso exigir que um jovem ou uma criança o façam?
Qual a coerência do meu trabalho? Minha irritação
com a turma indisciplinada é uma espécie de raiva por
saber que eles estão certos? Minha formação
permanente me indica novos caminhos? Estou repetindo
fórmulas que deram certo quando eu era aluno há 20
ou mais anos? É necessário um exercício analítico-crítico
muito denso para que eu enfrente o mais duro olhar
do planeta: o do meu aluno.
Décimo
SER PACIENTE!
Hoje eu acho que ser paciente é a maior
virtude do professor. Não a clássica paciência
de não esganar um adolescente numa última
aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que,
como dizia Rubem Alves, plantamos carvalhos
e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil,
com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém,
se você está lendo este texto, lembre-se: houve
uma professora ou um professor que o alfabetizou,
que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes,
a fazer a simples curva da letra O. Graças a estas
paciências, somos o que somos. O modelo da paciência
pedagógica é a recomendação materna para escova
r os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante
mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias.
As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada
com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito
que estão que eu não vou mais gritar sobre isto
(típica frase de sala de aula...). Sem estas paciências,
seríamos analfabetos e banguelas. Não devamos oferecer
menos ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não
merece nem quer esta paciência - este é o que necessita
urgentemente dela. O doente precisa do médico, não o sadio.
O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante
e limpo discípulo da primeira carteira.
e limpo discípulo da primeira carteira.
Fonte: www.ime.unicamp.br In. FARIA, Ricardo de Moura. Estudos de História, vol 1



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