"DEZ MANDAMENTOS DO PROFESSOR"


Por Leandro Karnal


Primeiro
CORTAR O PROGRAMA!
Quase todas as disciplinas foram perdendo aulas ao longo
 das décadas anteriores. Não obstante, os programas
 nem sempre acompanharam estes cortes. 
Pergunte-se: isto é realmente importante? 
Este conteúdo é essencial? Não seria melhor aprofundar
 mais tais tópicos e menos outros? Se a justificativa 
é a pressão do vestibular, ela não pode ocupar 11 anos
 de Ensino Médio e Fundamental. Se a justificativa 
é uma regra da escola ou um coordenador obsessivo, 
lembre-se: o Diário de Classe sempre foi o documento 
por excelência do estelionato. A coragem da grande 
tesoura é essencial. Dar tudo equivale a dar nada.
 Ensinar a pensar não implica esgotar o conhecimento 
humano.

Segundo

SEMPRE PARTIR DO ALUNO!
Chega de lamentar o aluno que não temos! 
Chega de lamentar que eles não lêem, a partir de uma 
nebulosa memória do aluno perfeito que teríamos sido
 (nebulosa e duvidosa). Este é o meu aluno real. Se, para
 ele, Paulo Coelho é superior a Machado de Assis 
e baile Funk é superior a Mozart, eu preciso saber 
desta realidade para transformá-la. Se ele é analfabeto
 devo começar a alfabetizá-lo. Se ele está no Ensino Médio
 e ainda não domina soma de frações de denominadores
diferentes devo estar atento: esta é minha realidade. 
A partir do zero eu posso sonhar com o cinco ou seis. 
A partir do imaginário da perfeição é difícil produzir algo. 
A Utopia, desde Platão e Thomas Morus, tem a finalidade
 de transformar o real, nunca de impossibilitá-lo.

Terceiro

PERDER O FETICHE DO TEXTO!
Em todas as áreas, em especial nas humanas, os alunos são 
instigados quase que exclusivamente ao texto. Num mundo 
imerso na imagem e dominado por sons e cores, tornamos 
o texto central na sala de aula. Devemos estar atentos
 ao uso de imagens, música, sensorialidades variadas. 
O texto é muito importante, nunca deve ser abandonado.
 Porém, se o objetivo é fazer pensar, o texto é apenas 
um instrumento deste objetivo maior. Há pessoas que 
pensam e nunca leram Camões e há quem saiba Os Lusíadas
 de cor e não pense... Lembre-se de que há outros instrumentos.
 A sedução das imagens deve ser uma alavanca a nosso favor,
 nunca contra. Usar filmes, propagandas, caricaturas, desenhos, 
mapas: tudo pode servir ao único grande objetivo da escola: 
ajudar a ler o mundo, não apenas a ler letras.

Quarto

POSSIBILTAR O CAOS CRIATIVO!
Fomos educados a um ideal de ordem com carteiras
 emparelhadas e, mesmo no fundo do nosso inconsciente, 
este ideal persiste. Qual professor já não teve o pesadelo
 de perder o controle total de uma sala, especialmente na 
noite mal dormida que antecede o primeiro dia de aula? 
Devemos estar preparados para o caos criador e para o lúdico.
 Alunos andando pela sala, trocando fragmentos de textos
 ou imagens dados pelo professor, discussões, encenações,
 o professor recitando uma poesia ou mandando realizar um 
desenho: tudo pode ser canal deste lúdico que detona o caos
 criativo. Surpreenda seus alunos com uma encenação, com 
um silêncio, com um grito, com uma máscara. Uma sala pode
 estar em ordem e ninguém aprendendo e pode estar com
 muitas vozes e criando ambiente de aprendizado. Lembre-se o s
ilêncio absoluto é mais importante para nós do que para os alunos.
 É difícil vencer a resistência dos colegas e da própria escola a isto.
 Lógico que o silêncio também deve ser um espaço de reflexão, 
mas é possível pensar que há valor num solo gentil de flauta, numa
 pausa ou num toque retumbante de 200 instrumentos.


Quinto

INTERDISCIPLINAR!

Assim mesmo, entendido o princípio como um verbo,
 como uma ação deliberada. É fundamental fazer 
trabalhos com todas as áreas. Elaborar temas transversais 
como o MEC pede e, ao mesmo tempo, libertar o aluno
 da idéia didática das gavetas de conhecimento. Não apenas
 áreas afins (como História e Geografia) mas também 
Literatura e Educação Física, Matemática e Artes, Química
 e Filosofia. É preciso restaurar o sentido original de conhecimento, 
que nasceu único e foi sendo fragmentado até perder a
 noção de todo. O profissional do futuro
 é muito mais holístico do que nós temos sido até hoje.

Sexto

PROBLEMATIZAR O CONHECIMENTO!
Oferecer ao aluno o cerne da ciência e da arte: o problema. 
Não o problema artificial clássico na área de exatas, mas os 
problemas que geraram a inquietude que produziu este mesmo 
conhecimento A chama que vivou os cientistas e artistas é
 transmitida como um monumento inerte e petrificado. 
Mostrem as incoerências, as dúvidas, as questões estruturais
 de cada matéria. Mostrem textos opostos, visões distintas, 
críticas de um autor ao outro. Nunca fazer um trabalho como: 
"O Feudalismo" ou "O Relevo do Amapá"; mas problemas para 
serem resolvidos. Todo animal (e, por extensão, o aluno) é curioso. 
Porém, é difícil ser curioso com o que está pronto. Sejamos francos:
 se é tedioso ler um trabalho destes, qual terá sido o tédio em fazê-lo?



Sétimo
VARIAR AVALIAÇÕES!
Provas escritas são válidas, como a vitamina A 
é válida para o corpo humano. Porém, 
avaliações variadas ampliam a chance de explorar
 outros tipos de inteligência na sala. As outras
 avaliações não devem ser vistas como um 
trabalhinho para dar nota e ajudar na prova,
 mas como um processo orgânico de diminuir
 um pouco a eterna subjetividade da avaliação.

Oitavo

USAR O MUNDO NA SALA DE AULA!
O mundo está permeado pela televisão, pela Internet, 
pelos jornais, pelas revistas, pelas músicas de sucesso.
 A escola e a sala de aula precisam dialogar com este 
mundo. Os alunos em geral não gostam do espaço da sala
 porque ele tem muito de artificial, de deslocado, de 
fora do seu interesse. Usar o mundo da comunicação 
contemporânea não significa repetir o mundo da 
comunicação contemporânea; mas estabelecer 
um gancho com a percepção do meu aluno.

Nono
ANALISAR-SE PESSOALMENTE!
A primeira pessoa que deve responder aos
 questionamentos da educação é o professor.
 Somos nós que devemos saber qual o motivo de dar
 tal coisa, qual a relevância, qual a utilidade de tal leitura.
 O professor é o primeiro que deve saber como tal ciência 
transformou a sua vida. Isto implica fazer toda espécie
 de questão, mesmo as incômodas. Se eu não fico lendo 
tal autor por prazer e nem o levo aos meus passeios 
como posso exigir que um jovem ou uma criança o façam?
 Qual a coerência do meu trabalho? Minha irritação 
com a turma indisciplinada é uma espécie de raiva por
 saber que eles estão certos? Minha formação 
permanente me indica novos caminhos? Estou repetindo
 fórmulas que deram certo quando eu era aluno há 20
 ou mais anos? É necessário um exercício analítico-crítico
 muito denso para que eu enfrente o mais duro olhar
 do planeta: o do meu aluno.

Décimo
SER PACIENTE!
Hoje eu acho que ser paciente é a maior
 virtude do professor. Não a clássica paciência
 de não esganar um adolescente numa última
 aula de sexta-feira, mas a paciência de saber que,
 como dizia Rubem Alves, plantamos carvalhos
 e não eucaliptos. Nossa tarefa é constante, difícil,
 com resultados pouco visíveis a médio prazo. Porém,
 se você está lendo este texto, lembre-se: houve 
uma professora ou um professor que o alfabetizou,
 que pegou na sua mão e ensinou, dezenas de vezes,
 a fazer a simples curva da letra O. Graças a estas
 paciências, somos o que somos. O modelo da paciência
 pedagógica é a recomendação materna para escova
r os dentes: foi repetida quatro vezes ao dia, durante
 mais de uma década, com erros diários e recaídas diárias. 
As mães poderiam dizer: já que vocês não querem nada
 com o que é melhor para vocês, permaneçam do jeito
que estão que eu não vou mais gritar sobre isto 
(típica frase de sala de aula...). Sem estas paciências,
 seríamos analfabetos e banguelas. Não devamos oferecer 
menos ao nosso aluno, especialmente ao aluno que não 
merece nem quer esta paciência - este é o que necessita 
urgentemente dela. O doente precisa do médico, não o sadio.
 O aluno-problema precisa de nós, não o brilhante 
e limpo discípulo da primeira carteira.

Fonte: www.ime.unicamp.br In. FARIA, Ricardo de Moura. Estudos de História, vol 1

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